A nova era dos condomínios: inteligência artificial e o desafio da presença humana - Em palestra no 22º Conami, Júlio Paim, CEO da SíndicoNet, analisa as novas expectativas dos condôminos e mostra como a tecnologia pode transformar a gestão condominial.
@Secovi-PE - 03/11/2025
O mercado condominial vem passando por mudanças significativas ao longo dos anos, especialmente no período pós-pandemia. Obrigadas a permanecer em casa e, posteriormente, com a consolidação do home office, as pessoas se tornaram mais sensíveis à atuação dos síndicos e das administradoras de condomínios. Esse aumento na percepção do público tem impactado diretamente o trabalho dos profissionais do setor.
O CEO e fundador da plataforma SíndicoNet, Júlio Paim, em sua palestra “As novas Expectativas da Massa Condominial e o poder da IA para escalar e customizar a gestão”, traçou um panorama do cenário atual e, por meio de dados, mostrou quais são as principais expectativas dos condôminos em relação à administração. Paim também apresentou de que forma as Inteligências Artificiais podem contribuir para melhorar a percepção dos moradores e, ao mesmo tempo, facilitar o trabalho dos síndicos.
A partir de informações coletadas no Google Trends, o executivo mostrou como o termo “condomínio” explodiu nas pesquisas do Google no cenário pós-pandêmico — um movimento que, segundo ele, acompanha o crescimento do mercado de administradoras. Com base em pesquisas da SíndicoNet, Paim apresentou as principais características associadas a uma boa ou má administração. Enquanto antigamente fatores como “segurança” eram os mais sensíveis aos moradores, hoje a qualidade da gestão condominial ocupa posição central nessa avaliação. Apesar disso, ele observa um paradoxo: “As administradoras estão cada vez mais relevantes, porém cada vez menos valorizadas. As pessoas não costumam ter conhecimento sobre o trabalho das administradoras.”
Em outras palavras, mesmo exercendo um papel essencial na experiência de morar, o trabalho das administradoras ainda é pouco visível. A consequência é uma avaliação frequentemente negativa dos moradores — que, sem distinguir as funções, acabam atribuindo as mesmas notas ao síndico e à administradora. “O morador costuma dar a mesma nota para ambos, porque não enxerga claramente a diferença entre os dois trabalhos”, explica Paim.
Por outro lado, a avaliação dos síndicos em relação às administradoras tende a ser muito mais positiva. Segundo o palestrante, isso ocorre porque os síndicos conhecem de perto o trabalho executado por elas: “O síndico, que tem consciência do trabalho da administradora, consegue fazer uma avaliação mais embasada.” A missão, portanto, passa a ser tornar visível o trabalho dos síndicos e das administradoras, aproximando os condôminos da compreensão sobre o que cabe a cada parte e como suas funções se complementam.
Outro desafio apontado por Paim é o da presença — elemento crucial para melhorar a percepção sobre a gestão condominial. As pesquisas mostram que os moradores preferem um síndico morador, justamente pela sensação de proximidade. “O melhor dos mundos parece ser juntar capacitação com presença. Presença é um grande desafio para um síndico profissional”, afirma.
Quando questionados sobre suas expectativas em relação à gestão, os entrevistados elencaram fatores divididos entre o que “deve ter” (must have) e o que “pode ter” (should have).
No primeiro grupo estão transparência, manutenção, comunicação eficiente e gestão de conflitos. Já o segundo inclui planejamento, agilidade, proatividade e proximidade. Para Paim, no entanto, um trabalho de excelência exige que o should have também seja tratado como must have: “É preciso que o que hoje é visto como desejável se torne obrigatório.”
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO CONTEXTO CONDOMINIAL
Diante desse cenário, a Inteligência Artificial surge como uma aliada poderosa para enfrentar os desafios do setor condominial. Segundo Paim, a tecnologia pode ampliar a presença dos gestores, melhorar a comunicação com os moradores e aumentar a eficiência operacional — tudo com mais precisão e personalização.
A primeira contribuição está justamente na proximidade: como estar presente sem, de fato, estar presente? Ferramentas de IA integradas a plataformas de atendimento 24 horas, como assistentes virtuais baseados em bases de conhecimento (com convenções, regulamentos internos, atas e históricos de demandas), tornam possível uma comunicação contínua entre síndicos e condôminos. Além disso, o uso do WhatsApp como canal estruturado de triagem, gestão e análise de solicitações tem se mostrado uma solução prática e acessível.
Outro ponto de avanço é o mapeamento estratégico da massa condominial. A partir de dados coletados ao longo do tempo, a IA pode identificar perfis de moradores, mapear o histórico e a intensidade das demandas e produzir relatórios analíticos que auxiliam na tomada de decisões. Essa análise permite reconhecer quais condôminos são mais participativos, quais estão mais próximos da administração e quais temas exigem maior atenção.
Combinadas, essas ferramentas configuram o que Paim chama de “nova era da gestão condominial”, em que tecnologia e empatia caminham lado a lado. “A demanda por velocidade só vai aumentar”, conclui o empresário. “O ideal é começar pelo simples e inserir a IA gradualmente na cultura das empresas — não de forma desordenada, mas como parte natural da rotina.”
Na área de manutenção, a tecnologia também se mostra essencial. Aplicativos integrados a sistemas de IA podem cruzar informações de inspeções prediais, analisar registros e imagens e produzir diagnósticos preventivos. Isso gera eficiência e segurança, além de alinhar as informações entre gestores e equipes técnicas. No campo da comunicação, a Inteligência Artificial pode ajudar a transformar relatórios burocráticos em boletins mensais mais atrativos e compreensíveis para os moradores. Em vez de longos balanços e planilhas, os condomínios podem adotar um formato visual, com gráficos, resumos de contas e pendências, em uma espécie de “jornal do condomínio”. Paim defende, inclusive, que vale a pena contratar alguém apenas para essa função, já que, com o auxílio da IA, o trabalho ficou muito mais simples e rápido de realizar.
Para os moradores, a escuta ativa é outro recurso promissor. Softwares de IA podem fazer uma leitura diária ou semanal das conversas em grupos de WhatsApp, detectando padrões de insatisfação, dúvidas recorrentes e sugestões. Essa “gestão preditiva” gera relatórios que ajudam o síndico a antecipar demandas e melhorar o clima condominial.
A tecnologia também permite que cada condomínio monte sua própria equipe de assistentes virtuais, com papéis específicos: um consultor condominial para responder dúvidas; um redator para produzir comunicados, atas e relatórios; analistas financeiros e de compras para elaborar previsões e cotações; e até um analista de manutenção responsável por roteiros de inspeção e diagnósticos de limpeza e conservação.
Essas soluções não apenas agilizam o trabalho cotidiano, como também ajudam a construir uma gestão mais humanizada, eficiente e transparente — atributos que aparecem entre os principais desejos dos moradores nas pesquisas conduzidas por Paim. De acordo com o levantamento, quando perguntados sobre como definiriam o “tema” ou a “personalidade” do condomínio onde moram, muitos o classificaram como “conflituoso e desorganizado”. No entanto, ao projetar o futuro, a maioria demonstrou o desejo de viver em espaços “eficientes e humanos” (42,2%), “comunitários e acolhedores” (22,2%) ou “silenciosos e respeitosos”.
Paim conclui com uma analogia que traduz o momento atual do setor: “Vivemos ondas no mercado. A primeira foi a pandemia, a segunda, o crescimento dos síndicos profissionais, e agora vem a terceira: a das inteligências artificiais. Não deixem essa onda passar."
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